Quinta-feira, 21 de Janeiro de 2010

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No final de 2008 tive uma mudança nos meus hábitos, fruto de um tumor que teve uma pessoa que muito significa para mim. O problema parecia estar debelado, porém, no final de 2009 voltou e, desta vez, aparentemente invencível. De acordo com os médicos, tem apenas alguns meses entre nós. Recusamo-nos a aceitar esta decisão e... lutamos com tudo o que temos, sobretudo porque nada há a perder. Eu próprio faço questão que alguém que tanto deu tenha a morte digna que merece e não todo o sofrimento que esta situação diferente acarreta.

Tenho acompanhado de muito perto este drama sobretudo porque sou uma das pessoas em alerta 24h para poder socorrer e ajudar em tudo, caso seja necessário. Tem sido. O mais dramático que destaco e que mais confusão me faz, por nunca me ter imaginado a conviver com esta situação, é a ida às consultas e aos tratamentos. Cenas que julgava só serem possíveis em filme, como as comunicações do médico a avisar que é muito complicado, entre outras recomendações, o cheiro a éter ainda mais pesado pela carga que os temas oncológicos acrescentam ao típico "cheiro de hospital", a sensação de perda, o olhar para a paciente e não ter coragem de lhe dizer a verdade para manter algum ânimo e esperança (fundamentais para o combate), a conversa "quando eu morrer, isto é para ti", a resignação quando se sente que o corpo vacila, entre tantas outras coisas. Só convivendo com a situação para perceber que muitas vezes os filmes retratam a realidade de forma mais exacta do que aquela que pensamos.

Aliás, e por falar em filmes, estas situações são em tudo semelhantes às telenovelas portuguesas dos anos 80: a falta de à-vontade, o amadorismo (no meu caso de lidar com uma situação de um tumor, no dos actores a representação televisiva), a frieza e a insensibilidade e a falta de conteúdo para dar alguma fluidez ou dar alguma cor e vida a uma cena a preto e branco. No final fica a sensação de vazio e tristeza e o desejo de não ter passado por tal tortura.

Isto tem mexido comigo, ainda que inconscientemente, e só ontem dei por mim a pensar que, de facto, estou diferente: mais apagado, mais cinzento, mais sério, mais carregado, com menos vida. Eu, que me ria de tudo, que não levava nada a sério como forma de esquecer que existem problemas e dificuldades (que sempre tive!), de repente dou por mim enquadrado na realidade e não estou a saber lidar com ela.

No meio disto tudo vale-me o trabalho. Parece paradoxal, mas não é. Não há coisa melhor do que trabalhar quando enfrentamos momentos como este: no meu caso, mantenho-me concentrado no que faço e esqueço, durante várias horas, que sou Ser Humano, não sou invencível, tenho problemas, tristezas e corro o risco de perder alguém que me é muito querido. Digo "corro o risco" porque enquanto há vida há esperança e, enquanto o coração bater, por mais que me digam "é muito pouco provável", ainda existe 1% de possibilidades de uma surpresa acontecer!

publicado por diariodeumfrustrado às 21:35
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3 comentários:
De Gipsi a 25 de Janeiro de 2010 às 23:44
Nestas alturas percebemos o quanto somos frágeis e fortes também ... Muita força para ti e aproveita todos os momentos que estejam juntos e não percas a esperança, essa é sempre a última a morrer.
Beijinho grande
De Fada a 26 de Janeiro de 2010 às 19:30
" Ola , Rodrigo , como vais a quanto tempo...!!
Sinto muito pelo que passas neste momento , sei que não ha muito a dizer ..
Infelizmente a vida é assim , eu perdi o meu pai a muito pouco tempo , acredita que não é nada facil.. , alguém quem amamos partir assim , é como não tivesse-mos mais nada para fazer nesta vida , mas afinal a morte de um chegado so nos vem mostrar o que a vida é realmente e que temos que vive-la bem enquanto ca estamos...Desejo-te muita força e coragem e pensa em quem esta a tua volta , que tambem gostam muito de ti.

Beijinho grande de saudade

"Fada"
De naogostopessoas a 27 de Janeiro de 2010 às 08:04
Pois é, é a lei da vida, nascemos e morremos, seja de que maneira for, acabamos por morrer...
Visto que é uma pessoa bastante próxima de ti, aconselhava-te a informares sobre os cuidados paliativos, pois vão dar alguma qualidade de vida nestes últimos meses, dando liberdade à pessoa de se despedir condignamente de todos aqueles que ama.
Agora, vê isto do lado positivo, se é que tem lado positivo... Poderás despedir-te dessa pessoa que amas, mimares essa mesma pessoa... Por vezes coisas simples acabam por ter um grande significado... Um abraço, um beijo, um pequeno presente parvo que faça a pessoa sorrir... Depois, sendo uma pessoa chegada, já pensaste que te vai custar menos vê-la partir do que se fosse, por exemplo, num acidente de carro? Aproveita o máximo de tempo que tens com essa pessoa, na melhor qualidade de vida possível...

P.S. Não tentes agir de forma parva, "como um actor amador", comporta-te como sempre te comportaste. De preferência, vai de sorriso nos lábios, um sorriso sincero, pensa que chegaste lá e aquela pessoa ainda está viva, todas as outras visitas já devem ir com ar carregado... Eu já tive no hospital, com um problema muito menos grave, mas eu preferia receber visitas bem dispostas, do que aquelas com ar de preocupação e sempre a fazer perguntas parvas, tipo: "queres um bolo? queres um sumo? queres que eu vá buscar alguma coisa? precisas de alguma coisa? estás bem? tens dores? conseguiste dormir?" Sempre é melhor perguntares se o vizinho ressona :P

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