Sábado, 10 de Abril de 2010

401

Há uns tempos visitei um país oriental. Já tinha curiosidade em "conhecê-lo", mas quando "o conheci", de facto, foi amor à primeira vista. Já aqui descrevi parte da minha experiência por lá, mas há algo que ainda não tinha referido e que me fez identificar com as pessoas deste "planeta": enquanto gaijin (palavra dada pelos nativos deste lugar aos que vêm de fora) e observador (sim, observo e registo literalmente TUDO o que se cruza no meu campo de visão periférica), pude olhar para os "seres" que se cruzavam comigo e tentar perceber como são e o que sentem.

Não se vêem assim tantos gaijin e nem dos que se vêem nem todos captam os olhares dos nativos, sobretudo se forem o tipo de gaijin que anda de calções, meias e sandálias. Isso não é "ocidental", é apenas desinteressante. Eles não olham para esses, que eu sei! Contudo não pensem que tudo são rosas: o pior que um gaijin pode enfrentar neste local é perder a imagem de "novidade". Se se transforma em "mais um que veio cá" sem nada de diferente para oferecer, acaba pior que os outros de calções, meias e sandálias.

Este povo olha e tira as medidas a todos os que tenham características físicas diferentes das deles e se vista de forma diferente. Gaijin de jeans, ténis de marca, blazer, estilo grunge ou desportivo (na onda dos surfistas e skateboarders), com outros adereços que digam "eu encarno o Ocidente e apresento-me de uma forma diferente da vossa". É para estes gaijin que eles olham! Olharam para mim, porque não uso calções, meias e sandálias. Senti que tentavam identificar os traços que eu tinha do outro lado do mundo. Olharam vezes sem conta, mas sempre que os confrontei com o meu, desviavam timidamente o olhar.

É uma sensação estranha, esta. Sobretudo num "planeta" em que as pessoas saem de todas as formas e feitios à rua (literalmente de todas as formas e feitios) sem que sejam acusadas de atentado ao pudor e sem que os equivalentes ao nosso género masculino torçam os pescoços para ver melhor as equivalentes femininas, ou sequer olhem de soslaio. Ninguém quer saber de ninguém. Só dos gaijin.

Andar nos transportes públicos deste local é uma experiência tão estranha e tão banal, quanto saborosa, sobretudo para pessoas como eu, que sou gaijin em mim próprio - embora por vezes seja daqueles gaijin de calções, meias e sandálias. É simplesmente indescritível a sensação de circular em transportes cheios de gente (sem ser obrigatoriamente à pinha) e observar que cada um está por si como se circulasse sozinho em cada carruagem. É uma estranha sensação de sermos únicos no mundo com uma impressionante solidão. É o estarmos literalmente rodeados de gente e sós, abandonados, sem ninguém querer saber de nós. É o incómodo provocado pelo desprezo que se associa ao alívio por não dar nas vistas. É olhar em volta e ver gente tão diferente que por vezes parecem todos iguais e é como se olhássemos em direcção ao vazio e pensar no ontem, ou até no amanhã (os pensamentos de que não nos lembramos do que estamos a pensar são os "pensamentos no amanhã", que, por ainda não terem acontecido, não nos lembramos deles).

Em suma, é uma sensação ímpar, que mexeu comigo, e me fez ver, para meu alívio, que afinal não só existe Marte, como lá ainda existem formas de vida que se assemelham a mim! Voltarei lá, definitivamente, nem que seja para ter a mesma sensação conjunta de unicidade e solidão. Sim, senti-a em quem me rodeava e sempre que me banalizava e perdia a imagem de "novidade". Impagável!

publicado por diariodeumfrustrado às 01:18
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