Sábado, 17 de Julho de 2010

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Sinto falta de ter o excesso de tempo livre que tenho. Ocupo-o com nada e não dou conta dele passar. Quem inventou a relatividade do tempo, mente. Não precisamos de estar numa situação que nos dá prazer para que este passe depressa. Basta que nos sentemos e olhemos para uma tela vazia, em branco, dia após dia, e que sintamos que o sangue que nos corre nas veias corre à mesma velocidade que a vida e quando subitamente acordamos desta fase de meditação, vemos que aquela nos passou de tal forma ao lado que damos por nós no mesmo nível de maturidade e evolução humana de há 10 anos atrás.

Viajei para o futuro? É provável. Sinto que temporalmente avancei vários anos, mas, sou exactamente o mesmo, sem desenvolvimento. Continuo o mesmo "Rodrigo Azevedo trial version 1.0" que foi lançado há bem mais de uma década no mundo dos adultos e desde então sente-se um autêntico Mogli, qual estranho numa terra estranha - a propósito, bom livro, este, de Robert A. Heinlein, que marcou a minha adolescência.

Sinto-me à deriva, no meio do Pacífico (onde, aliás, nunca estive), de braços e pernas bem abertos e esticados (velho truque para qualquer um se manter à superfície em água salgada), e espero que a corrente me leve a qualquer destino. Já remei muito, já nadei imenso, e, depois da minha embarcação ter sido pilhada por piratas, sinto-me sem forças para canalizar os meus esforços em algo que a qualquer segundo pode acabar em mãos alheias, que não lhe dará o devido valor.

Perdi o que de mais precioso tinha. É certo que era um coração e até podia ser de pechisbeque para quem o levou, mas era o meu coração e para mim era ouro puro! Ao menos levassem-no e cuidassem dele, mas os piratas acharam-no pouco valioso e deitaram-no ao mar. No mesmo instante transformou-se em pedra e foi ao fundo do Oceano. Não mais o consegui agarrar. Desde então encontrei uma boa solução para me proteger dos ataques destes criminosos: hipotequei os meus bens, abdiquei do meu património. Ninguém pode roubar quem nada tem.

Tudo isto me confunde e leva-me a procurar caminhos que me permitam adaptar e tomar um rumo. Drogas? Isso é coisa de meninos. Encher-se de substâncias para fugir à realidade da vida é coisa de meninos. Homem que é homem rejeita iludir-se e tornar-se dependente do que quer que seja. Homem que é homem sacrifica-se e enfrenta a vida tal como ela é: é como fazer uma endoscopia e uma colonoscopia ao mesmo tempo e a frio, sem anestesias!

música: The Walkmen - Everyone Who Pretended To Like Me Is Gone
publicado por diariodeumfrustrado às 22:39
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4 comentários:
De s. a 19 de Julho de 2010 às 11:29
Numa noite de alguma tristeza caí aqui. Já fui e pensei como tu até ao dia em que deslizei pela resignação (palavra bem feia mas até q libertadora) decidindo aceitar tudo com uma certa leveza: "todas as relações correm mal? - vou então amar-me e se aparecer alguém, ñ pode ser pior que a relação anterior..." um dia apareceu alguém, mas como me amava a mim mesma ñ me interessou. Finalmente, passado um tempo, apareceu a alma gémea. Quanto ao trabalho, é para o desenrasque, que isto hoje em dia....e as pessoas, bem isso partilhamos a mesma opiniao penso eu.
Já deves estar farto de comentários a animar-te, eu gosto deste blog como é mas espero no entanto q um dia faças um " o diário de um contemplado".
De ana a 20 de Julho de 2010 às 15:36
O coração que foi transformado em pedra e que foi ao fundo no oceano, um dia vai ser encontrado por uma sereia que lhe vai dar de novo uma nova vida...sonhar é bom, faz bem e depois pode-se tornar realidade é só preciso acreditar!
Ainda há pessoas boas, poucas, mas há.
nunca deixes de sonhar...
De De passagem a 5 de Agosto de 2010 às 22:12
Que a vida nos torne fortes para podermos sentir as alegrias e as dores dos outros, nossos irmãos.
Bem sei o que faz a sociedade a quem se sente diferente mas há muitos como tu.

O realismo pode ser uma droga como outra qualquer. Sabes bem que temos um pé nesta realidade e outro noutra. Sabes bem que a vida tem dois lados interdependentes e que conhecê-los pode significar liberdade. Sabes bem que quem muito pensa muito sente e que o sentir é tantas vezes labiríntico.

Continuo a acreditar no poder do diálogo aberto e sincero, acima de tudo, na cura de todos os males. O problema é ter o grau de confiança que proporciona uma tal abertura. É a grande aventura da alma humana. Confiar.

Um abraço
De parole a 3 de Dezembro de 2010 às 15:09
Sorri... (e eu, diferente de ti, sorrio muito pouco) com a expressão "Homem que é homem sacrifica-se e enfrenta a vida tal como ela é: é como fazer uma endoscopia e uma colonoscopia ao mesmo tempo e a frio, sem anestesias!"
Porque eu também penso assim... e não tento enganar nem iludir com substâncias para fugir à realidade. O que sinto é o que sinto... sem subterfúgios.


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