Quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2009

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Nota de redacção: não leia este post sem antes pôr a correr a melodia do filme "Despertar da Mente".

 

Despertar da Mente. Ou Eternal Sunshine of The Spotless Mind. No momento em que me encontro a escrever este post oiço simultaneamente a música instrumental (não confundir com a banda sonora toda) do filme. São 2'24'' de loop contínuo, o que já deve fazer cerca de 20 minutos e talvez atinja outras marcas. Ainda me recordo de quando vi o sacana do filme, um dos meus preferidos, sozinho (como de costume), no cinema (coisa rara), naquela tarde de início de verão de 2004.

Consigo recordar-me de tudo o que senti enquanto via o filme e pós-filme, como se tivesse saído daquela sala de cinema há instantes. Recordo-me do vazio e da desilusão com a vida e da forma como saí ainda mais ôco daquela escuridão. Fiquei a pensar no que vi ali retratado durante dias, semanas até. Sim, semanas. A partir de determinada altura consegui abstrair-me, mas as sensações ficaram cá gravadas, pois voltei a despertá-las, todas elas, há alguns dias atrás.

E se pudessemos voltar atrás e apagar todas as memórias más? Até que ponto isso nos traria vantagens? Para mim talvez trouxesse algumas. Por mais que diga que sim, insisto em não aprender com os erros. Sou uma pessoa insegura, confesso. Sou inseguro porque já confiei, já confiei tudo o que tinha, e confesso que a minha primeira grande relação, ou primeiro grande amor, me desiludiu bastante no fim. Todos os relacionamentos que se lhe seguiram, posso dizê-lo hoje, para minha infelicidade, foram meras buscas de preenchimento daquela grande desilusão, tentativas defraudadas de substituir aquela pessoa que tanto me marcou.

Tinha 18 anos e sempre que oiço falar em desgostos amorosos na adolescência consigo compreender esse fenómeno, ainda que muita gente diga, no alto da sua ignorância, "são crianças, não sabem sentir". Se soubessem o quanto se enganam... Quando tinha 15 anos, tive conhecimento de uma colega de escola ter falecido vítima de um desgosto amoroso. Esgotamento, ansiedade, úlcera nervosa, rebentamento, morte. Aconteceu e aconteceu por amor. Na altura estranhei, mas mais tarde entendi.

Tentei voltar a ser sincero, a dar o meu melhor, mas o feedback não era o mesmo. Mentiras, jogos, caprichos, com algumas coisas boas à mistura. Não eram suficientes, mas também já não me conseguia sacrificar tanto em prol de alguém. Para quê? A desilusão e a frustração foram dando lugar à descrença. A D. até pode ser de confiança, mas não acreditava no que via, desconfiava sempre e acusava-me de ser algo que nunca fui com ela, nem sou. Deve ter passado pelo mesmo que eu. Decidiu partir para outra. Não sou contra a amizade entre homens e mulheres, mas tenho graves problemas de confiança e insegurança por tudo o que já passei. Ela não consegue entender e também nunca se esforçou muito para me fazer confiar nela aos poucos. Sim, partiu para outra e eu revelei insegurança, logo estou dispensado. Não a censuro. Afinal, quem tolera uma pessoa assim nos dias de hoje? Espero que a D. consiga encontrar a sua felicidade e alguém que lhe transmita mais segurança do que eu.

Não falamos desde a célebre discussão de sábado à noite que culminou com um "não me digas mais nada, nem uma mensagem sequer, ok?" e da parte dela "és mesmo um ser muito estranho...". Duvido que alguma vez nos voltemos a contactar, apesar de ser provável que nos vejamos no futuro, dados os compromissos profissionais. Senti-me no meio de um capricho, senti-me ameaçado e respondi de forma hostil. Sim, posso ter sido parcialmente injusto, mas ela nunca se mostrou tolerante para com a minha forma de ser, não eram poucas as vezes em que me chamava "quadrado" porque dizia não ser contra os homossexuais, mas ser contra o casamento. Insurgia-se, ofendia-me e virava-se do avesso. Sempre que a elogiava, desviava a conversa, fingia que não ouvia, ou então dizia "tu deves querer apanhar". Sempre que tentava provocar o toque ou sentar-me perto dela, ela fintava as minhas investidas. Sempre que consegui chegar a ela, mostrava-se inerte, como se estivesse a ser forçada. Começou a evitar-me e eu percebi. Deu errado, mas não foi por falta de tentativa da minha parte. Tentei, dei o que podia. Ela nunca deve ter pensado muito nisso. Acusava-me de misoginia e dizia que eu devia ter alguma aversão a mulheres que não revelava. Nunca percebi onde ia ela buscar essa ideia... Nunca falei mal de mulheres no geral, sempre defendi e defendo o nome "seres humanos", em vez da separação homem/mulher, mas ela insistia na misoginia. Nunca consegui perceber uma série de observações dela, fundamentadas em qualquer ponto da sua imaginação, não sei. Lembro-me ainda que me perguntava se eu tinha a certeza que não era gay. Tantas vezes perguntou e tantas vezes garanti estar seguro da minha masculinidade que certa vez, fartei-me, e perguntei-lhe se podia provar-lhe de uma vez por todas que não o era. Ela fingiu que não ouviu e disfarçou.

Sou limitado e inseguro, mas reconheço as minhas lacunas e os meus defeitos e encontro-me a trabalhá-los. Se a outra pessoa não se esforça, de certeza que não posso ir longe. Assim sendo, encontro-me a trabalhá-los sozinho, sem a ajuda de ninguém. O pior é quando vierem as pessoas... se vierem... sou a aberratio...

Acabou... foda-se... lá estou eu abatido... Apaguei-a... mas de todos os registos que tinha dela. Aos poucos ela vai desaparecendo do registo de mensagens enviadas. Sempre que envio uma mensagem a alguém, clico em "destinatários" e lá aparece ela como um dos últimos para quem enviei mensagem.

O que me lixa no meio disto tudo é saber que tinha encontrado alguém com quem podia conversar e devanear à vontade. Não tinha máscaras... e acabou tudo porque... não sei, ainda não percebi, mas acho que foi pela minha insegurança, porque eu estava a querer algo que ela não queria mas não tinha coragem de assumir, porque ela era intolerante, porque ela tinha os seus caprichos, porque... enfim, é mesmo importante o porquê? Acabou e não volta atrás. Até podia voltar se existisse alguma medicina milagreira que me apagasse os episódios tristes e as desilusões e apagassem o mesmo nela, e nos devolvesse ao ponto em que pela primeira vez trocámos uma palavra...  Mas isso não vai acontecer... ela está noutra e eu estou na merda... como sempre...

publicado por diariodeumfrustrado às 19:04
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2 comentários:
De Gipsi a 19 de Fevereiro de 2009 às 01:14
Esse filme também é um dos meus preferidos e concordo contigo, dá que pensar, ao contrário de ti fico com uma visão diferente, mais optimista ... se te lembras, ao querer apagar uma personagem da nossa vida, não há selecção do que se quer apagar, desaparece tudo o que nos causa mágoa e dor mas também tudo o que houve de bom e a fuga à borracha é uma boa demonstração de que independentemente de tudo vale a pena viver.
A algum tempo desafiei-te a que tentasses encontrar algo de bom de um momento que tivesses considerado perda, com esse repto e uma vez que passo por uma fase semelhante à tua achei que o desafio valia para mim também e garanto que é uma boa surpresa :)
De Ana a 19 de Fevereiro de 2009 às 17:23
Mais uma vez, é tudo ou nada? porque não apenas ficar amiga e servir de companhia precisamente pra umas sessões de cinema?

Esse teu tudo ou nada faz-me imensa confusão. Precionas tanto a outra pessoa e a ti mesmo, que depois ou a pessoa foge, ou foges tu, de tanta pressão que metes numa relação, que até ao ponto é só de amizade...

Começo a ter pena das tuas namoradas, porque devem estar sugeitas a tal pressão... Desculpa desiludir-te, mas a perfeição não existe, pelo menos no ser humano não existe.

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