Quarta-feira, 14 de Abril de 2010

403

A desilusão. Como lidar com ela? Hoje tive outra. Daquelas grandes. Não, não envolveu pessoas, nem relações pessoais. É curioso que sempre que me acho preparado para todas e "calejado" pelos desgostos provocados pelas desilusões, rapidamente concluo que afinal não estava preparado. Nunca estamos. Não interessa o nosso grau de experiência em lidar com a adversidade, estamos sempre disponíveis para encaixar mais uma e para reagir mal. É como se julgássemos que já batemos no fundo e já atingimos o limite máximo de facadas nas costas. É sempre possível ir um pouco mais fundo e descobrir mais um espaço no nosso coração pronto a ser trespassado por uma faca que julgamos desta vez ser aquela que nos deixará imunes a tudo na vida. Não deixa. É possível afundar-nos ainda mais.

Contudo, vou notando algumas diferenças à medida que a experiência aumenta. Já não tenho como reacção zangar-me com o mundo, ter vontade de partir o que aparecer à frente (embora sem nunca o ter realmente feito), desistir de tudo, gritar de raiva, etc. Agora limito-me a embrulhá-las em slow motion e a sentir lentamente o vazio a tomar conta de mim. Não sei se sofro. Sei que fico sem reacção, coço a cabeça, olho para o vazio, penso no nada, suspiro profundamente e, finalmente, deixo o corpo desfalecer, ficando estático. São minutos perturbantes.

Volto a mim. Tento encontrar um nexo causal que justifique que o facto X, tenha acontecido no momento Y, comigo (Z). Forço várias soluções. Faço questão de encontrar o tal nexo causal e fico pior por não encontrar nenhum motivo. Penso porque raio certas coisas acontecem comigo. Penso na minha reacção à desilusão. Penso nos que me rodeiam e pelo menos aparentam serem felizes. Penso nos que têm tudo para serem felizes. Julgo que as minhas concluões são influenciadas pela dita desilusão.

Faço uma introspecção rápida por toda a minha vida. A minha Páscoa e o meu Natal são celebrados neste tipo de situações, acontecimentos que me forçam a dedicar-me à meditação sobre tudo o que tenho feito. Penso como seria se tudo fosse diferente. Penso como seria se muita coisa fosse diferente. Penso como seria se algumas coisas fossem diferentes. Penso como seria se apenas uma coisa fosse diferente. Deve haver um motivo para serem como são. Se calhar não há motivo nenhum e isto sou eu a complicar aquilo que é simples.

Penso se vale a pena continuar a lutar. Penso porque devo lutar se não sei bem pelo quê. Penso sobre o que faço aqui. Penso como seria a vida dos que me rodeiam se eu não estivesse presente. Penso como seria a vida dos que me rodeiam se eu nunca tivesse existido. Penso como será a vida deles se eu continuar. Tento vislumbrar os meus limites para suportar desgostos e desilusões.

Acabo no meu blogue, com os dedos deitados sobre o teclado, a olhar para o vazio, a suspirar profundamente, a pensar no nada e a preparar-me para clicar em "publicar" antes de me deitar e deixar que o meu corpo desfaleça entre pensamentos vazios e inércias em resultado da desilusão de hoje. O sono tem isto de bom, ajuda a enterrar um dia passado bem como todos os seus dissabores. Não quero saber como será amanhã, mas sentirei que vou estar mais que preparado para enfrentar qualquer desilusão que possa ter até descobrir que afinal... não estava.

publicado por diariodeumfrustrado às 21:39
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