Quarta-feira, 5 de Novembro de 2008

294

Os últimos dias foram de pânico, terror e tristeza. Tomei conhecimento que foi detectado um cancro no fígado a uma familiar minha que é a minha verdadeira 2.ª mãe, que ajudou a cuidar de mim durante anos e sempre me deu o que podia e o que não podia. Tomei ainda conhecimento que não havia hipótese de fazer quimioterapia por ser numa zona muito sensível. Fiquei de rastos. Curiosamente, em toda a minha vida só tive que lidar com a morte de um avô meu quando tinha 13 anos e não a senti assim tanto, dado que não tinha tanta ligação a ele quanto isso. No entanto deixou-me triste pois tinha boas recordações dele e representava uma grande perda para o meu pai e para a minha avó.

Sempre vi tanta gente à minha volta a perder os pais, os tios, os avós e tudo o que eu tive foi a morte de um avô. Durante os vários anos em que me julgava "anormal" por ter uma vida e uma forma de ser completamente diferente da dos outros, pedia sinais que me aproximassem dos outros todos. A morte de alguém próximo chegou a ser uma das coisas que pedia. Hoje não canso de me dar valentes bofetadas interiores por alguma vez ter pensado tamanhos disparates. Pensando bem, era fruto da adolescência e do início da vida adulta e não tinha consciência do que é perder um familiar. Curiosamente perdi alguns amigos e colegas de escola, mas não é a mesma coisa como perdermos sangue do nosso sangue. Pelo menos para mim não foi. No fundo devia ser bastante inconsciente.

Hoje penso de forma diferente e, ainda que me sinta desenquadrado da minha família, como sempre senti, sinto uma enorme gratidão por não me terem dado o que eu queria, ou sempre aquilo que precisava, mas por me terem dado o melhor que podiam. Pode não ter sido o necessário, mas tenho a sorte de ter uma família que só não me deu o mundo porque não pôde ou não sabia como poder dá-lo.

Essa minha familiar a quem foi diagnosticado o cancro é a minha avó. Subitamente dou por mim a pensar que na minha família não há precedentes de mortes precoces, de doenças graves, ou algo que se assemelhe. Até tenho a sorte da minha família não ter registo de muitos obesos, sendo na sua maioria gente elegante. Este caso é excepcional, pois a minha família é um exemplo de longevidade. Tenho vários registos de bisavós e tios-avós que faleceram nos seus 90 anos.

Tal foi o choque com que recebi a notícia que dou por mim a pensar em tudo aquilo que a minha avó me deu. Lembro-me dela me dizer vezes sem conta quando eu andava pelos 18/19 anos que se não arranjasse uma namorada a sério até aos 20, nunca mais arranjava nenhuma. Bem que ela sabe que muitos anos depois a profecia continua a cumprir-se. Ainda antes de ter conhecimento desta notícia terrível fui visitá-la (como faço todos os fins-de-semana, onde ainda lhe vou buscar comprar para que não tenha que andar a carregar pesos) e ela me deu o sermão que me dá há algum tempo (podemos ter 20, 30, 40 ou 50 anos, mas as mães e as avós têm sempre qualquer coisa para nos dizer) para que eu faça a barba para parecer mais novo do que sou senão nenhuma mulher me quer. Já lhe disse diversas vezes que com ou sem barba elas não me querem à mesma e assim como assim mais vale andar como me sinto melhor. Quer ver-me casado à força. Já passei de prazo há muito, diz ela.

Lembro-me ainda de uma altura em que a minha irmã espalhou o boato que eu era homossexual e em que, por incrível que pareça, a minha família acreditou. Aqui as coisas são muito simples: se é macho, tem mulher. Se não tiver, então denota um "piquinho a azedo". Demorou a afastar esse mito e mesmo assim acho que ainda hoje alguns familiares meus chegam a ter momentos em que devem levantar a hipótese de eu ser homossexual. Não sou, nunca fui, nem em ocasião alguma duvidei da minha sexualidade.

Por fim, lembro-me quando há mais de dez anos a minha avó chegou de surpresa (tinha a chave de casa na altura) e eu na cama com a minha companheira de então. Ainda me lembro que ela teve que ficar escondida debaixo da cama cerca de meia hora e a sorte é que a colcha era bastante larga e dava para a esconder bem.

Por entre todas estas e muitas outras lembranças veio a sensação de perda. Ia perder uma pessoa que me deu tanto durante tantos e tantos anos e a quem eu nunca retribuí 0,1% de tudo o que fez por mim. A consciência pesou bastante e deu-me um click interior: e se fosse eu a ter o cancro? E se fosse eu a ter 2 ou 3 meses de vida? Como me iria sentir? Iria sentir-me arrependido por ter deixado que a vida me tivesse passado ao lado. Não aproveito nada do que me aparece, porque nem sequer percebo a tremenda sorte que tenho. Uma colega de trabalho diz-me isso quase que diariamente. Nunca fui doente; sempre pude comer e beber o que quis; sempre tive quem se oferecesse para me ajudar (ainda que nem sempre fosse a ajuda que necessitava); tive o azar das minhas namoradas serem na sua maioria verdadeiras cabras, completamente vazias, mas ao mesmo tempo tive a sorte de me ver livre delas sem ser preciso fazer nada nesse sentido (podia ter desgraçado a vida com qualquer uma delas, quer através de um filho comum, quer através de uma qualquer doença); sempre que se fecha uma porta na minha vida, abre-se outra que à primeira vista parece não ser nada, mas mais tarde revela-se como sendo uma solução; sempre tive discernimento para ver o mundo à minha volta sem me deixar arrastar pelas ilusões, exceptuando o amor e mesmo assim passei por situações que me permitiram saber o que NÃO QUERO numa mulher, mantendo-me na esperança de que quando ela aparecer, será mesmo a companheira que precisarei para estar do meu lado e eu do lado dela; tive ainda a sorte de nunca perder um familiar próximo, algo de que muito poucos no mundo se podem gabar. No fundo, todas as adversidades pelas quais passei permitiram-me aprender algo e abrir os olhos relativamente a alguma situação. Ainda assim acho que tenho passado ao lado da vida e está na altura de abrir os olhos. Esta é a única vantagem nesta notícia que recebi.

Como sou uma pessoa no fundo, no fundo, cheia de sorte, ontem recebi a notícia que o tumor descoberto no fígado da minha avó está numa fase tão inicial que é extremamente raro descobrir algo assim, de acordo com os médicos. O único problema em fazer a cirurgia é que é extremamente agressiva para quem é avançado em idade como a minha avó é. Mas a ser bem sucedida, praticamente poderá continuar mais alguns anos entre nós, ao contrário das semanas de vida que a esperam se não enfrentar a cirurgia. No meio de uma desgraça ainda há muita sorte e eu acho que já percebi isso.

publicado por diariodeumfrustrado às 21:01
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Domingo, 2 de Novembro de 2008

293

Não sou racista, não sou homofóbico, não sou machista. Mas se há coisa que mais me irrite é ver gente a promover a discriminação positiva, que é uma forma tão grave de discriminação quanto a negativa que visa oprimir uma raça, uma tendência sexual, ou um género. Essa coisa da lei da paridade só para garantir 1/3 das mulheres em cargos políticos quer sejam competentes, quer não, e essa coisa de querer ter o primeiro Presidente norte-americano preto* independentemente da sua experiência ou competência, leva-me aos arames! Quando é que as pessoas aprendem que somos todos humanos e a vida não se resume a uma guerra de sexos, raças e gostos?

É uma vergonha a forma como estão a levar Barack Obama ao colo!

 

* utilizo o termo preto não tem nada de racista, porque se para eles eu sou "branco," então eles para mim são "pretos". Isso do politicamente correcto que se deve dizer "negro" porque preto é ofensivo, é uma filosofia da batata. Quando me chamarem "caucasiano", então terei muito prazer em chamar "negro".

publicado por diariodeumfrustrado às 13:20
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Sábado, 1 de Novembro de 2008

292

Quando fui ao jantar de aniversário do E. encontrei vários colegas de Faculdade e não só. Estudei Direito, numa conceituada Faculdade da nossa praça. Pelo menos assim era quando eu lá estudei. Não sei como é no presente, sobretudo com este assassinato à educação superior e louvor ao enriquecimento sem causa das Faculdades que é o Plano de Bolonha.

A esmagadora maioria dos meus ex-colegas são hoje advogados da nossa praça. Gosto de me recordar o quão puras eram as suas palavras enquanto estudávamos e os ideais de justiça que tinham. Naquela altura sonhávamos com coisas como "fazer a diferença", "mudar o mundo", "dar um rumo à situação de perdição" e "descobrir o sentido da vida". Rebelávamo-nos contra as injustiças, de facto. Confesso que eu era apologista das situações mais radicais. Todos os que pertenciam ao meu núcleo duro rebelavam-se, mas quando o aperto chegava e se viam encurralados, encolhiam-se e entravam pelas vias diplomáticas. Eu sempre fui mais radical e vivia o lema "Patria o muerte". Não havia meio caminho. Acabava por ser um grande 800 e não um 80, quando eles eram, de facto o 8, e por vezes o 28.

Chegou a altura típica neste género de jantares que reunem grupos que não se vêem há algum tempo (apesar de ser um jantar de aniversário) que é a chamada "feira das vaidades", onde cada um se vangloria dos seus feitos. Tenho pesadelos com isso, porque não suporto afirmações pessoais e protagonismos no meio de um grupo de amigos e/ou de pessoas próximas. Acresce que normalmente existe uma forte tendência para se cair na arrogância e no pretensiosismo. Não gosto de falar de trabalho, apesar de gostar do que faço e não tive muita coisa para contar: levo uma vida profissional pacata, mas exigente a nível intelectual. Surpreendeu-me ver um lírico e idealista ex-amigo* vangloriar-se por há cerca de um ano ter conseguido absolver um indivíduo que batia no seu filho deficiente, chegando mesmo a espancá-lo. Enquanto todos os outros perguntavam "como é que fizeste isso?", eu interrompo a glória do sujeito e digo: "atrasado mental!". Não, não me referia ao filho do ex-arguido, mas a quem tudo fez para o absolver mesmo sabendo que ele era culpado. E continuei, dizendo que de facto não entendo como é que alguém pode ficar feliz e sentir-se realizado por ter impedido que se aplicasse justiça sobre alguém que cometeu um crime.

Devo dizer que só explodi com este episódio, porque já antes outro amigo meu se havia vangloriado do facto de ter "conseguido" uma pena suspensa para um indivíduo acusado de violência doméstica e que espancava a mulher. Ele conseguiu o feito de um homem não ser condenado por uma juíza e por uma Procuradora do Ministério Público num crime de violência doméstica. Do ponto de vista dele foi obra, mas do meu ponto de vista só teria sido obra se o homem realmente estivesse inocente.

Devo dizer que já exerci durante algum tempo e desisti. A advocacia é um estímulo intelectual, mas do ponto de vista moral custa-me engolir os muitos sapos que acarreta. Custa a muita gente entender que "defender alguém", não é forçosamente tentar absolver ou conseguir uma pena suspensa para o arguido. Nem sempre é assim. Na minha opinião, "defender alguém" é defender os seus interesses e os da comunidade, e por vezes uma temporada na prisão, ou uma pena de multa, pode ajudar a reabilitar um potencial criminoso. Quando o crime compensa, a probabilidade de reabilitar alguém para a sociedade diminue significativamente.

É por estas e por outras que os advogados são alguns dos principais cancros da nossa sociedade. E assim se vão os sonhos e ideais de jovens estudantes de Direito que queriam mudar o mundo, mas acabaram engolidos pelo mar de estupidez e ignorância em que mergulharam muitos advogados da nossa sociedade, inspirados pela vontade mesquinha de quererem ter a sensação que são superiores à Lei, contrariando-a e aplicando a sua própria justiça.

 

 

* Não posso chamar de "amigo" a qualquer um que se cruza comigo. Já tive uma grande proximidade com ele, mas quando no barco da amizade só um é que rema e tenta manter os laços, enquanto o outro deixa o barco andar sem se preocupar muito em mantê-lo a navegar, aquele que rema acaba por se cansar.

publicado por diariodeumfrustrado às 18:22
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291

Estou chateado com tudo! Estou chateado comigo! Estou chateado com o mundo! Estou chateado com a vida! Estou farto de tudo! Estou farto de mim! Estou farto do mundo! Estou farto da vida! Estou cansado... e farto!

publicado por diariodeumfrustrado às 13:30
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