Sábado, 22 de Março de 2008

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A Q. foi uma pessoa que ocupou uma função muito importante na minha vida, durante quase 3 anos. Conhecemo-nos em situações adversas. Ela era casada, mais velha, mas via o marido como um "irmão". Sentia-se muito sozinha e carente por alguém que realmente pudesse amar. Não se queixava do marido que a amava, mas queixava-se de não o conseguir amar a ele.
A carência é um estado muito crítico e sensível. Não a censuro, nem censuro as pessoas que sintam carência.
Conhecemo-nos e acabámos por nos envolver. Só ao fim de alguns meses houve contacto mais íntimo. Até lá havia muita conversa, partilha, afectos, etc. Ela ser casada cedo me trouxe problemas de consciência, o que me levou a terminar as coisas bastante cedo. Se ela era casada, para quê alimentar algo que era errado?
Estivemos três meses sem contacto. Foi uma decisão acertada. Ao fim de três meses, a Q. voltou a contactar-me. Palavra puxa palavra e quando demos conta... voltámos ao mesmo. A partir daí não deixámos mais o contacto um com o outro. Como é natural, disse-lhe que não iria continuar com ela, estando ela casada. Decidiu, ao fim de algum tempo, comunicar ao marido que não pretendia continuar mais com ele.
Houve um largo período de muita confusão, porque ele não se importava com a situação, mas apenas queria continuar com ela, para poder manter a família toda junta. Ao mesmo tempo incomodava-me saber que partilhavam o mesmo espaço juntos e outras coisas mais.
Por diversas vezes tentei desligar dela, mas ela voltava sempre à carga. Não conseguia desligar-se de mim.
Havia algo nela que me perturbava: a crise de confiança e falta de amor próprio. Durante todo o tempo que estivemos "juntos" referia constantemente que possivelmente não merecia ser amada, que não gostava de si, que devia ter tido a atitude de deixar o marido quando nova, porque de certa forma sempre foi infeliz toda a vida, por estar com uma pessoa que não amava, etc. Tomava vários fármacos para tentar diminuir a ansiedade, a dor, e para poder ter algum sossego. Por várias vezes tentei transmitir-lhe confiança no futuro, que tudo ia correr bem, e que a amava. Nunca era suficiente. Cheguei a fazer diversas vezes mais de 60km de táxi só para poder estar com ela 10/15 minutos. Tentei provar-lhe que merecia ser amada, e que estava na altura de deixar que isso acontecesse.
Golpeou-se diversas vezes, deixando marcas no seu corpo, tal era a frustração que sentia ao lidar com estas crises de falta de amor próprio. Chegou a afirmar que não merecia viver e que iria descansar para sempre. Nesses momentos desligava o telemóvel e desaparecia. Eu ficava impotente para poder fazer alguma coisa, dado que tinha a família dela em casa e não podia colocá-la em risco caso algo não tivesse de facto acontecido.
Compreendo aquilo que ela sentia. Compreendo o vazio e a frustração. Já senti várias vezes o mesmo que ela sentiu.
Ao fim de mais de dois anos, as coisas parecem começar a resolver-se para o lado dela. O marido acabou por sair de casa, e começámos a ter mais tempo para estarmos juntos e podermos permitir que a nossa relação se desenrolasse. No entanto, ao fim daquele tempo todo, a nossa relação já tinha atingido um desgaste tal que me fez questionar diversas vezes se valeria a pena avançar. Ela tinha problemas, eu tentei ajudá-la, mas nunca consegui. Como seria dali para a frente? Algumas crises continuavam... e comecei a perder o sentimento que durante muito tempo nos uniu.
As coisas acabaram naturalmente. No entanto, gostaria de destacar que muito aprendi com ela, e que foi, possivelmente, a pessoa mais correcta, mais honesta, mais pura e com maior vontade de amar, que conheci até hoje. Tenho mesmo muita pena por não conseguir mandar no coração. Apesar de mais velha, é uma pessoa com um interior lindíssimo e puro, e merecia, sinceramente, ser feliz. É graças a ela que ainda hoje acredito que as mulheres não são todas iguais, e que ainda há por aí algumas mulheres de jeito, dispostas a fazer tudo pela sua felicidade, por amor e pela felicidade de pessoas à sua volta. A Q. marcou-me, entre outras coisas, essencialmente por isto: é um exemplo para todas as que por aí andam e se portam mal. Apesar de ter sido uma relação muito tortuosa, só lhe tenho a agradecer o facto de ter estado na minha vida e de ainda hoje me fazer acreditar que é possível conhecer uma mulher como deve ser. Só tenho a desejar que seja feliz. Não merecia sofrer, nem tão-pouco ser tão só como é. Teve ainda outra coisa muito boa: esteve presente muitas vezes, em momentos-chave da minha vida e nunca me mentiu ou ocultou o que quer que fosse. É um exemplo de carácter e integridade.

P.S.: Agora sim, esgotei todas as histórias sobre relações sérias que tive.
publicado por diariodeumfrustrado às 13:32
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