Terça-feira, 18 de Novembro de 2008

306

Sou um perito em coleccionar inimigos. Aliás, já fui. Tinha o "dom" de provocar, não pela maldade, mas pelo desafio que isso significava. Gostava de ver até onde ia a outra pessoa. Gostava de ver até onde esticava a corda. Gostava de ver se alguém me fazia a mim desesperar. Não me refiro a provocação sexual, mas provocação gramatical, mental. Com pequenas situações da vida, adorava desenvolver uma sátira à base desse acontecimento. Fazer isso desde cedo dava-me bastante gozo e também uma enorme ginástica mental. Talvez por isso tenha seguido Direito. Era óptimo pensar nos problemas e encontrar lacunas na lei. Como me sentia feliz de cada vez que fazia um comentário que fazia a sala ou o anfiteatro ficarem em silêncio por ser inconveniente e contra natura. Adorava detectar o defeito e trucidá-lo. Não basta ganhar, há que humilhar. Era assim. Por incrível que pareça não era por maldade. Gostava de ver as expressões de desespero em algumas pessoas. Ok, começo a ver que afinal era mesmo maquiavelismo, mas sem querer atingir nada de especial, a não ser os limites.

Ganhei alguns (muitos) inimigos desta maneira. Ainda hoje muita gente não me grama porque era provocador, polémico, inconveniente, impertinente. Fazia-me sentir que navegava contra a corrente e sempre pensei que era possível deixar a corrente a navegar contra mim e ser eu a ganhar-lhe. Não existiam desafios impossíveis. Existiam níveis de dificuldade.

Na vida temos sempre "números" críticos. Na minha geração eram os 6 anos, idade com que entrávamos no ensino primário (lembram-se que tinhamos que completar os 6 anos de idade até 30 de Setembro?); depois eram os 13, idade em que entrávamos na adolescência (que anos terríveis!!!); os 13 anos culminavam, por regra, com a entrada no 8.º ano (outro número crítico) de escolaridade, ano crítico em que muita gente reprovava sempre de ano (conheço tantos casos e conheço tanta gente que conhece outros tantos); depois é a chegada aos 16, em que muitos querem começar a ser independentes (eu comecei um ano antes, mas isso são detalhes); seguem-se os 18 em que queremos olhar os nossos pais nos olhos e dizer-lhes "vês? Agora tenho 18 anos e eu é que sei o que faço com a minha vida!", ainda que não saibamos rigorosamente nada quer sobre os 18 anos, quer sobre a vida, quer ainda sobre as intenções dos nossos pais. Depois temos a verdadeira entrada na idade adulta que por norma costuma acontecer dos 25 para os 26 ou dos 26 para os 27. Eu integro-me neste último caso. Notei uma diferença bastante grande quando completei 27 anos. Tenho a sensação que andava aqui com um batalhão de fuzileiros prontos a disparar-me balas de maturidade e quando completei 27 foi a hora! Dispararam todos e, quer acreditem, quer não, notei uma diferença repentina. Claro que alguns atrasos mentais continuam a fazer parte de mim, bem como o meu lado criança (e ainda bem! Espero nunca perder este meu lado). Mas senti uma diferença na entrada para os 27 anos. Ganhei outra consciência das coisas e outra maturidade que os famosos 18 não dão. Foi na fase de transição, entre os 26 e os 27, que me deixei destes desafios. Foi a partir daí que me acalmei. Tornei-me uma pessoa diferente neste aspecto. Gosto de desafiar, mas já me canso mais depressa e tomo consciência de quando estou a ferir a outra pessoa, ainda que não tenha nenhuma intenção maldosa para com ela. Hoje estou relativamente calmo. Não sou polémico, sou muito mais ponderado. E o curioso é que também oiço isto dos meus comparsas a quem eu sempre deixava a cabeça em água de cada vez que me metia em conflitos.

 

Nota: Um dia espero estar aqui para falar da entrada nos 40, nos 60 e quem sabe noutras idades em que a vida trata de fazer com que sejam particularmente diferentes das restantes-

publicado por diariodeumfrustrado às 20:39
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9 comentários:
De Sara a 18 de Novembro de 2008 às 21:29
Eu comecei à cerca de um ano essa última fase que falaste :)

E estou a gostar!
De soflor a 18 de Novembro de 2008 às 21:58
Olá, este post só merece o seguinte comentário: continuas a ser um provocador verbal nato... mas agora não coleccionas inimigos mas sim fans do teu blog que é uma boa provocaçao mental ...principalmente para o lado feminino ;)... será que alguém te quer ver menos " frustado " ?!!... que a tua viagem no tempo para os 40 e 60 e... todos aqueles que desejares...seja com mais amigos do que inimigos...
Beijinhos
De vita a 18 de Novembro de 2008 às 22:47
Pois, a idade traz-nos isso, maturidade.;)

Beijo
De Anita §!§ a 19 de Novembro de 2008 às 10:12
Devia ser cá uma personagem.
Sabe o que acho? Teve sorte de não ter apanhado um pior que você, se assim fosse era ver um "choque de titãs".
è engraçado dizer que atingiu o auge da maturidade aos 27, quando a maioria diz ser aos 25, diz ter sido aos 27 porque (se calhar) foi aos 27 que aconteceu alguma coisa que o marcou.
Sinceramente maturidade para mim é sinónimo das vivências e experiências de vida, e não sinónimo de idade. Para mim a maturidade começou aos 21, em que deixei de ser aquela "tempestade", em que "varia tudo" e passei a ser mais amena, claro com dias que pareço um vendanal (mas isso é outro assunto), posso dizer que dos meus pequenos 23 anos, já passei, já vi, já senti, já experienciei tantas, que a ninguém passa pela cabeça...

Notei que fala já nos 60, e isso é bom, está com vontade de viver muito, só espero que intensamente.

P.S. apercebi-me que estudou direito, quem sabe um dia não viro sua "colega".

Beijoca


De guga a 20 de Novembro de 2008 às 12:15
olá, identifico-me com quase tudo o que relataste no post. Tenho perto de 30 anos, sou uma criança autêntica, gosto de provocar, principalmente de quem eu não gosto, curto massacrar, picar, mas sempre quem não gosto. Gostei de saber que não sou a unica personagem ao cimo da terra que gosta de provocar as pessoas e acumular "inimigos", tenho muita gente que não me grama, tal como não os gramo a eles. Loool
Fica bem, e bons "picanços". . .

G!
De Bichana a 19 de Novembro de 2008 às 14:39
Um post inteligente! Gostei.
De meninadesonhos a 19 de Novembro de 2008 às 14:44
Pelos vistos tudo muda!!

As pessoas, o mundo que nos rodeia... e isso tudo muda porque a nossa visão do mundo, com o acentuar da idade faz com que mude!

=)

Beijo
De Ana a 19 de Novembro de 2008 às 19:45
«Ainda hoje muita gente não me grama porque era provocador, polémico, inconveniente, impertinente.»

hummmm dentro do mesmo estilo mas não no mesmo sentido tb coleccionei algumas inimizades! Até acho saudável! ;)

Gostei muito do post... Tanta coisa para se dizer k já se tem 27 anos xD

;P beijo*
De cigana a 20 de Novembro de 2008 às 11:00
Gostei imenso deste post, tão verdadeiro, tão espontâneo, tão crítico. Também gosto desses desafios, mas é preciso ter quem esteja à altura deles, senão nem tem piada.

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