Terça-feira, 18 de Novembro de 2008

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Sou um perito em coleccionar inimigos. Aliás, já fui. Tinha o "dom" de provocar, não pela maldade, mas pelo desafio que isso significava. Gostava de ver até onde ia a outra pessoa. Gostava de ver até onde esticava a corda. Gostava de ver se alguém me fazia a mim desesperar. Não me refiro a provocação sexual, mas provocação gramatical, mental. Com pequenas situações da vida, adorava desenvolver uma sátira à base desse acontecimento. Fazer isso desde cedo dava-me bastante gozo e também uma enorme ginástica mental. Talvez por isso tenha seguido Direito. Era óptimo pensar nos problemas e encontrar lacunas na lei. Como me sentia feliz de cada vez que fazia um comentário que fazia a sala ou o anfiteatro ficarem em silêncio por ser inconveniente e contra natura. Adorava detectar o defeito e trucidá-lo. Não basta ganhar, há que humilhar. Era assim. Por incrível que pareça não era por maldade. Gostava de ver as expressões de desespero em algumas pessoas. Ok, começo a ver que afinal era mesmo maquiavelismo, mas sem querer atingir nada de especial, a não ser os limites.

Ganhei alguns (muitos) inimigos desta maneira. Ainda hoje muita gente não me grama porque era provocador, polémico, inconveniente, impertinente. Fazia-me sentir que navegava contra a corrente e sempre pensei que era possível deixar a corrente a navegar contra mim e ser eu a ganhar-lhe. Não existiam desafios impossíveis. Existiam níveis de dificuldade.

Na vida temos sempre "números" críticos. Na minha geração eram os 6 anos, idade com que entrávamos no ensino primário (lembram-se que tinhamos que completar os 6 anos de idade até 30 de Setembro?); depois eram os 13, idade em que entrávamos na adolescência (que anos terríveis!!!); os 13 anos culminavam, por regra, com a entrada no 8.º ano (outro número crítico) de escolaridade, ano crítico em que muita gente reprovava sempre de ano (conheço tantos casos e conheço tanta gente que conhece outros tantos); depois é a chegada aos 16, em que muitos querem começar a ser independentes (eu comecei um ano antes, mas isso são detalhes); seguem-se os 18 em que queremos olhar os nossos pais nos olhos e dizer-lhes "vês? Agora tenho 18 anos e eu é que sei o que faço com a minha vida!", ainda que não saibamos rigorosamente nada quer sobre os 18 anos, quer sobre a vida, quer ainda sobre as intenções dos nossos pais. Depois temos a verdadeira entrada na idade adulta que por norma costuma acontecer dos 25 para os 26 ou dos 26 para os 27. Eu integro-me neste último caso. Notei uma diferença bastante grande quando completei 27 anos. Tenho a sensação que andava aqui com um batalhão de fuzileiros prontos a disparar-me balas de maturidade e quando completei 27 foi a hora! Dispararam todos e, quer acreditem, quer não, notei uma diferença repentina. Claro que alguns atrasos mentais continuam a fazer parte de mim, bem como o meu lado criança (e ainda bem! Espero nunca perder este meu lado). Mas senti uma diferença na entrada para os 27 anos. Ganhei outra consciência das coisas e outra maturidade que os famosos 18 não dão. Foi na fase de transição, entre os 26 e os 27, que me deixei destes desafios. Foi a partir daí que me acalmei. Tornei-me uma pessoa diferente neste aspecto. Gosto de desafiar, mas já me canso mais depressa e tomo consciência de quando estou a ferir a outra pessoa, ainda que não tenha nenhuma intenção maldosa para com ela. Hoje estou relativamente calmo. Não sou polémico, sou muito mais ponderado. E o curioso é que também oiço isto dos meus comparsas a quem eu sempre deixava a cabeça em água de cada vez que me metia em conflitos.

 

Nota: Um dia espero estar aqui para falar da entrada nos 40, nos 60 e quem sabe noutras idades em que a vida trata de fazer com que sejam particularmente diferentes das restantes-

publicado por diariodeumfrustrado às 20:39
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