Sábado, 22 de Novembro de 2008

307

Há alturas em que nos sentimos muito pequeninos, miseravelmente pequeninos, inferiores a tudo e a todos, incapazes, limitados, bloqueados, pouco desenvolvidos. Há alturas em que julgamos que só os outros é que conseguem tudo e nós não conseguimos nada. Há alturas em que achamos que só os outros são felizes e nós não. Há alturas em que pensamos que só a nós o azar bate à porta, e os outros são bafejados pela sorte. Há alturas em que tudo o que há de negativo parece só nos acontecer a nós e tudo o que é bom acontece aos outros. Na verdade, o que por vezes nós vemos acontecer de bom aos outros também nos acontece a nós, o problema é que não damos conta disso. Também acontece que os outros se julguem os maiores afortunados, os mais felizes, aqueles a quem tudo acontece de bom, quando aquilo que recebem são verdadeiros "presentes envenenados". Dou exemplos: quem não fica com inveja de alguém que ganha o Euromilhões? Eu sou um dos que se rói e não é pouco, aviso já. Alguém consegue acreditar mesmo que o Euromilhões é um desafogo para a vida de alguém, que alguém vai conseguir ser feliz a partir desse momento? Alguém consegue acreditar que o dinheiro traz felicidade? Não traz, mas ajuda se quem o tem tiver muito sangue frio. Alguém tem ideia do número de pessoas a quem a vida não era tão positiva quanto isso mas que após lhe ter saído um "prémio grande" a sua vida inicialmente foi das melhores que se podia ter mas após algum tempo o jogo inverteu-se radicalmente e o vencedor chegou a pensar "quem me dera poder ter a minha antiga vida de volta"?

Um outro exemplo é no respeitante ao amor. Alguém faz ideia do baixo número de relações e casamentos bem sucedidos que por aí andam? Quantos não são os casos em que a família está bem estruturada, bem organizada, as pessoas sorriem quando as vemos na rua, parecem viver minimamente bem, mas na sua intimidade são discussões, desentendimentos, contam os tostões, têm amantes, a sua vida sexual e amorosa é um desastre, etc?

Podia dar muitos outros casos de situações que por vezes julgamos que é "algo bom" que só os outros têm e nós não, mas já pensaram no valente alívio que pode ser não termos que dar um passo em frente para mais tarde darmos cinco atrás? Há por aí muitos exemplos de "felicidade" que não passam de felicidade mascarada.

Assim como eu uso uma máscara no dia-a-dia para esconder a minha tristeza, o meu vazio e não expor as minhas vulnerabilidades, quantos e quantos não o fazem também. Há vezes em que nos julgamos pequenos, frágeis, sensíveis, limitados e bloqueados. Mas acreditem, todos os comuns mortais com que nos deparamos por aí, são tão limitados, pequenos, frágeis, sensíveis e bloqueados quanto nós somos. Experimentem descobrir pelos vossos próprios olhos. Escolham alguém em quem vêem confiança, sucesso, felicidade. Abordem uma dessas pessoas e "apertem" um pouco até que ela desabafe sobre a sua vida. Vão ver que muitas são um verdadeiro castelo de cartas à espera do primeiro abanão para as por à mesma altura que as restantes que estão cá em baixo e não compõem o castelo.

publicado por diariodeumfrustrado às 10:22
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